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Shalimar: como nasceu um dos perfumes mais icônicos do século

  • Foto do escritor: Jessica Factor
    Jessica Factor
  • 26 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura
Frasco do perfume Shalimar da Guerlain, com líquido âmbar e tampa azul safira, posicionado centralmente sobre um fundo de ouro líquido ondulante. Ao redor do frasco, favas de baunilha escuras, uma flor branca delicada e uma bergamota, representando as notas da fragrância.

Em 1925, no auge do movimento art déco, a Guerlain apresentou um perfume que mudaria a história da perfumaria: Shalimar. Criado por Jacques Guerlain, ele é considerado o primeiro perfume oriental âmbar da perfumaria moderna, um ponto de virada que abriu espaço para construções mais sensuais e densas em plena década de 1920. O nome homenageia os Jardins de Shalimar (um termo persa que significa “morada do amor”), em Agra, Índia, ligados à lenda de amor entre o imperador Shah Jahan e Mumtaz Mahal, a mesma história que inspira o Taj Mahal. O romantismo associado à narrativa ajudou a moldar o imaginário do perfume desde o início.



O frasco original, exposto pela primeira vez na Exposição Internacional de Artes Decorativas de 1925 (o evento que batizou o art déco), seguia a estética do período e foi desenvolvido por Raymond Guerlain, com forte influência do trabalho de René Lalique – algo perceptível no vidro curvo, no pedestal e na tampa azul em forma de leque, inspirada nas fontes dos jardins indianos. Essa tampa azul-safira tornou-se um dos códigos visuais mais reconhecidos da marca.


Assim como o frasco, a fórmula também era ousada para o período. Jacques Guerlain utilizou etil-vanilina em larga escala, uma molécula sintética com um cheiro muito mais intenso, cremoso e doce do que a vanilina natural e que, na época, soava moderna, quase provocativa – algo que chocou o público, que estava acostumado a florais suaves e colognes limpas. O acorde de âmbar, baunilha, íris e notas cítricas inaugurou um tipo de sensualidade que muitos consideraram “exagerada” ou “indiscreta”, mas que logo se tornou uma das assinaturas da casa.


O impacto foi tamanho que Shalimar nunca saiu de produção nestes 100 anos, algo raríssimo no mercado. Com o tempo, ele formou sua própria linhagem – Eau de Cologne, Eau de Toilette, Souffle de Parfum, Parfum Initial, Millésime, Philtre de Parfum – cada uma reinterpretando a estrutura original, mas sempre preservando a tríade cítrico–floral–baunilha.


A longevidade do perfume também passa pela cultura pop. Entre as admiradoras que o adotaram ao longo das décadas estão nomes como Rita Hayworth, Frida Kahlo, Louise Brooks, Brigitte Bardot, Andy Warhol e Jane Birkin, que colecionava frascos antigos e dizia que Shalimar era seu cheiro “para sempre”. Ao longo do século, o perfume apareceu em filmes clássicos como O Piano (1993) e Em Roma na Primavera (1961), em romances que associam sua fragrância a personagens enigmáticas (caso de Três Mulheres Fortes, de Marie NDiaye) e em campanhas icônicas da própria Guerlain, incluindo anúncios art déco dos anos 1920, a campanha dirigida por Bruno Aveillan em 2013 e o filme “Shalimar Souffle de Parfum” com Natalia Vodianova, em 2014. Esses registros confirmam o perfume como um ícone intergeracional.


Fotografia de uma escultura da série "Nana", de Niki de Saint Phalle, na exposição "En plein cœur" na Maison Guerlain. A obra é uma figura feminina volumosa e colorida com asas, apresentando padrões vibrantes em azul, vermelho e amarelo, posicionada em uma sala clara com quadros ao fundo.
Vista da obra "Nana" de Niki de Saint Phalle na exposição "En plein cœur". Cortesia Guerlain
Vista da exposição "Shalimar Centennial: 100 Years of Love" no Waldorf Astoria New York. A sala possui paredes em azul profundo com grandes painéis retroiluminados exibindo fotografias artísticas do frasco de Shalimar. No centro, uma mesa de mármore redonda com perfumes e flores sob um lustre dourado em formato de sol.
“Shalimar Centennial: 100 Years of Love”, Waldorf Astoria New York. Foto: Alyssa Greenberg
Frasco de Shalimar em uma composição artística sobre fundo preto, adornado com penas coloridas em tons de vermelho, azul, amarelo e rosa, lembrando a cauda de um pavão. O reflexo do frasco é visível na superfície escura.
O Shalimar L’Essence em edição limitada, criado pela artista Janaïna Milheiro em homenagem a Frida Kahlo. Guerlain.

Em 2025, a Guerlain celebra o centenário de Shalimar com novos materiais, relançamentos e até exposições temporárias. As redes sociais da marca vêm reunindo campanhas restauradas, anúncios art déco, imagens de arquivo e edições limitadas. Em Nova York, o perfume ganha uma mostra inteira dedicada à sua história: “Shalimar: 100 Years of Love”, instalada no recém-reaberto Waldorf Astoria, sede do maior spa Guerlain do mundo.


A exposição (5 de novembro - 7 de dezembro) aprofundou a história do perfume, incluindo uma sala que permitia sentir os ingredientes estruturais da fragrância – baunilha, bergamota, tonka, íris, rosa e jasmim – além do novo Shalimar L’Essence, criada pela perfumista Delphine Jelk. Já em Paris, a Maison Guerlain apresentou a exposição “En plein cœur” (22 de outubro - 16 de novembro), um percurso de arte contemporânea inspirado no mito de Shalimar. Curada por Hervé Mikaeloff e Benoît Baume, a mostra reuniu artistas como Françoise Pétrovitch, Niki de Saint Phalle, RongRong & inri, Omar Ba, Iván Argote, Liu Bolin, Pierre & Gilles e Louise Bourgeois.



Além das exposições, o centenário inclui a recriação do frasco clássico em edição de 1,5 litro em cristal Baccarat, limitada a 100 unidades, e duas colaborações com artistas contemporâneas. A franco-brasileira Janaïna Milheiro reinterpretou o frasco de Shalimar L’Essence em uma edição de 66 peças inspiradas no universo visual de Frida Kahlo. Já a escultora Géraldine Gonzalez criou uma Bee Bottle de 1 litro, numerada, coberta de contas de vidro banhadas em ouro 24 quilates e acompanhada de uma lua crescente metálica iluminável.


Uma artesã de cabelos castanhos trabalha detalhadamente em um frasco dourado da Guerlain (Bee Bottle) em seu ateliê. Ao lado dela, uma escultura de lua crescente dourada e iluminada com estrelas.
Trabalho da artista Géraldine Gonzalez para a Guerlain. Cortesia Guerlain

Essas ações dialogam com a visão de Ann-Caroline Prazan, diretora de Arte, Cultura e Patrimônio da Guerlain, que descreve Shalimar como “mais do que um perfume, é o cheiro de um mito”.


O Shalimar Eau de Parfum (o clássico) segue no catálogo da Guerlain, e custa entre US$ 110 e US$ 170, conforme o tamanho. Apenas um perfume de cem anos, plenamente disponível para quem quiser colocar um ícone na própria bancada. E, se a desculpa for “presentinho de fim de ano”, você já tem uma.


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